Projeto de terras raras em Caldas gera expectativa econômica e preocupação ambiental.

outubro 14, 2026Agricultura

Empreendimento previsto para 2028 divide opiniões entre a perspectiva de crescimento econômico e o receio de impactos sobre a agricultura e os recursos naturais.

O município de Caldas, no Sul de Minas Gerais, se prepara para receber um novo empreendimento de mineração, mas a expectativa de desenvolvimento vem acompanhada de preocupações ambientais. O Projeto Caldeira, da empresa australiana Meteoric Resources, pretende explorar terras raras em uma área de 425 hectares, nas proximidades da antiga unidade de mineração de urânio das Indústrias Nucleares do Brasil (INB).

Com previsão de início das operações em 2028, o projeto estima processar 5 milhões de toneladas de material e produzir 15 mil toneladas anuais de carbonato de terras raras. Esses minerais são utilizados na fabricação de equipamentos eletrônicos, veículos elétricos, turbinas eólicas e tecnologias relacionadas à defesa.

A expectativa é que o empreendimento tenha participação significativa no mercado internacional, com capacidade estimada para atender a cerca de 8% da demanda mundial por esses elementos.

Proximidade com antiga mina preocupa moradores

Apesar das perspectivas econômicas, a localização do projeto desperta atenção. A área de exploração fica próxima à Área de Proteção Ambiental Pedra Branca e à antiga unidade de mineração de urânio da INB, que carrega um histórico relacionado à atividade nuclear no município.

A instalação iniciou suas atividades na década de 1980 e produziu aproximadamente 1,5 mil toneladas de concentrado de urânio, utilizado no abastecimento da usina nuclear de Angra I. As operações foram encerradas em meados da década de 1990.

Mesmo desativada, a unidade ainda mantém cerca de 12 mil toneladas de resíduos radioativos provenientes do processamento de areias monazíticas realizado na antiga Usina Santo Amaro, em São Paulo. O material permanece acondicionado em tambores, galpões, áreas subterrâneas e em uma barragem.

A permanência desses resíduos contribui para a preocupação da população local, que teme que a chegada de uma nova atividade mineradora possa trazer consequências ambientais duradouras.

Agricultores temem possíveis prejuízos

A agricultura tem papel fundamental na economia de Caldas. O município reúne mais de 900 produtores rurais, em sua maioria ligados à agricultura familiar. Mais de cem propriedades estão localizadas nas proximidades da antiga mina, com atividades que incluem o cultivo de uvas, rosas e hortaliças, além da produção de leite.

Para os trabalhadores do campo, a principal preocupação está relacionada à preservação da água e das condições necessárias para manter a produção agrícola.

O presidente do Sindicato Rural de Caldas, Messias Sebastião Guimarães, defende que o empreendimento seja acompanhado de fiscalização rigorosa para evitar danos às famílias que dependem da atividade rural.

A posição dos produtores, segundo ele, não é contrária ao desenvolvimento econômico, desde que a mineração seja conduzida de maneira responsável e não comprometa o trabalho de quem vive na região.

Estudos indicam ausência de risco radiológico relevante

Até o momento, os estudos apresentados para o Projeto Caldeira e analisados pelos órgãos reguladores não identificaram risco radiológico relevante associado ao empreendimento. Em avaliação preliminar, a Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN) dispensou a exigência de medidas adicionais específicas de controle radiológico para a instalação.

A Meteoric Resources afirma que realizou estudos para fundamentar medidas de prevenção e redução dos impactos ambientais previstos.

De acordo com a proposta divulgada pela empresa, a extração ocorrerá na superfície, com retirada de camadas rasas de argila e sem utilização de explosivos. O projeto também prevê a operação sem barragens de rejeitos, com o preenchimento das áreas escavadas utilizando a própria argila após tratamento.

Desenvolvimento e preservação em debate

A implantação do Projeto Caldeira coloca em evidência um desafio para Caldas: conciliar oportunidades econômicas com a proteção ambiental e a segurança das comunidades rurais.

Embora as avaliações mencionadas não indiquem risco radiológico relevante relacionado à nova mina, a população acompanha com atenção as medidas de controle ambiental e as possíveis consequências da atividade sobre a água, o solo e a produção agrícola.

Nesse cenário, o acompanhamento dos órgãos fiscalizadores e a transparência sobre os resultados dos estudos serão fundamentais para esclarecer as dúvidas dos moradores e avaliar a compatibilidade do empreendimento com as atividades econômicas e ambientais do município.

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